Desafios para a era do conhecimento
Nas últimas duas décadas do século XX assistimos a grandes mudanças,
tanto no campo socioeconômico e político, quanto no campo da cultura, da
ciência e da tecnologia. Vimos grandes movimentos sociais, como os que
ocorreram no leste europeu no final dos anos 80, culminando com a queda do muro
de Berlim. Ainda não fazemos uma idéia clara do que deverá representar, para
todos nós, a globalização da economia, das comunicações e da cultura. As
transformações tecnológicas tornaram possível o surgimento da era da
informação.
No início do século XX, H. G. Wells dizia que “a história da humanidade
é cada vez mais a disputa de uma corrida entre a educação e a catástrofe”. A
julgar pelas duas grandes guerras que marcaram a “história da humanidade”, na
primeira metade do século XX, a catástrofe venceu. No início dos anos 50
dizia-se que só havia uma alternativa: “socialismo ou barbárie” (Cornelius
Castoriadis). E chegamos ao final do século com a derrocada do socialismo
burocrático de tipo soviético e do enfraquecimento da ética socialista. E mais:
pela primeira vez na história da humanidade, não por efeito de armas nucleares,
mas pelo descontrole da produção industrial, podemos destruir toda a vida do
planeta. mesmo tempo enfoque, quando falamos, por exemplo, em perspectiva
política, e possibilidade, crença em acontecimentos considerados como prováveis
e bons. Falar em perspectivas é falar de esperança no futuro.
Hoje, muitos educadores estão perplexos diante das rápidas mudanças na
sociedade, na tecnologia, na economia, e se perguntam sobre o futuro de sua
profissão; alguns, co A virada do milênio é razão oportuna para um balanço
sobre práticas e teorias que atravessaram os tempos. Falar de “perspectivas
atuais da educação” é também falar, discutir, identificar o “espírito” presente
no campo das idéias, dos valores e das práticas educacionais que as perpassam,
marcando o passado, caracterizando o presente e abrindo possibilidades para o
futuro. Algumas perspectivas teóricas que orientaram muitas práticas poderão
desaparecer, e outras permanecerão em sua essência. Quais teorias e práticas se
fixaram no ethos educacional, criaram raízes, atravessaram o milênio e estão
presentes hoje? Para entender o futuro é preciso revisitar o passado. No
cenário da educação atual podemos destacar alguns marcos, algumas pegadas, que
persistem e poderão persistir na educação do futuro.
O TRADICIONAL E O NOVO
A educação tradicional e a educação nova têm em comum a concepção da
educação como processo de desenvolvimento individual. Todavia, o traço mais
original da educação do século XX foi o deslocamento de enfoque, do individual
para o social, para o político e para o ideológico. A pedagogia institucional é
um exemplo disso. A experiência de mais de meio século de educação nos países
socialistas também o testemunha. A educação, no século XX, tornou-se permanente
e social. É verdade, existem ainda muitos desníveis entre regiões e países,
entre o norte e o sul, entre países periféricos e hegemônicos, entre países
globalizadores e os países globalizados. Mas existem idéias universalmente difundidas,
entre elas, a de que não há idade para se educar, de que a educação se estende
pela vida toda e que ela não é neutra.
EDUCAÇÃO INTERNACIONALIZADA
No início da segunda metade do século XX, educadores e políticos
imaginaram uma educação internacionalizada, confiada a uma grande organização,
a Unesco. Os países altamente desenvolvidos já haviam universalizado o ensino
fundamental e eliminado o analfabetismo. Os sistemas nacionais de educação
trouxeram um grande impulso, desde o século passado, possibilitando numerosos
planos de educação, que diminuíram custos e elevaram os benefícios. Como
resultado, temos hoje uma grande uniformidade nos sistemas de ensino. Podemos
dizer que atualmente todos os sistemas educacionais do mundo contam com uma
estrutura básica muito parecida.
NOVAS TECNOLOGIAS
As conseqüências da evolução das novas tecnologias, centradas na
comunicação de massa, na difusão do conhecimento, ainda não se fizeram sentir
plenamente no ensino – como previra McLuhan já em 1969 – pelo menos na maioria
das nações, mas a aprendizagem a distância, sobretudo a baseada na internet,
parece ser a grande novidade educacional neste início de milênio. A cultura do
papel representa talvez o maior obstáculo ao uso intensivo da internet, em
particular da educação a distância com base na internet. Por isso, os jovens
que ainda não internalizaram inteiramente a cultura do papel, adaptam-se com
mais facilidade que os adultos ao uso do computador. Eles já nascem com essa
nova cultura, a cultura digital.
Os sistemas educacionais ainda não conseguiram avaliar suficientemente o
impacto da comunicação audiovisual e da informática, seja para informar, seja
para bitolar ou controlar as mentes. Os que defendem a informatização da
educação sustentam que é preciso mudar profundamente os métodos de ensino para
reservar ao cérebro humano o que lhe é peculiar, a capacidade de pensar, em vez
de desenvolver a memória. Para ele, a função da escola será, cada vez mais, a
de ensinar a pensar criticamente. Para isso é preciso dominar mais metodologias
e linguagens, inclusive, a linguagem eletrônica.
PARADIGMAS HOLONÔMICOS
Entre as novas teorias surgidas nesses últimos anos, despertaram
particular interesse dos educadores os chamados paradigmas holonômicos, ainda
pouco consistentes. Complexidade e holismo são palavras cada vez mais ouvidas
nos debates educacionais. Nesta perspectiva podemos incluir as reflexões de
Edgar Morin, que critica a razão produtivista e a racionalização modernas,
propondo uma lógica do vivente. Esses paradigmas sustentam um princípio
unificador do saber, do conhecimento, em torno do ser humano, valorizando o seu
cotidiano, o vivido, o pessoal, a singularidade, o entorno, o acaso e outras
categorias como: decisão, projeto, ruído, ambigüidade, finitude, escolha,
síntese, vínculo e totalidade.
Os holistas sustentam que o imaginário e a utopia são os grandes fatores
instituintes da sociedade. Recusam uma ordem que aniquila o desejo, a paixão, o
olhar, a escuta. Os enfoques clássicos, segundo eles, banalizam essas dimensões
da vida porque sobrevalorizam o macroestrutural, o sistema, onde tudo é função
ou efeito das superestruturas socioeconômicas ou epistêmicas, lingüísticas e
psíquicas. Para os novos paradigmas a história é essencialmente possibilidade,
onde o que vale é o projeto de vida e o imaginário (Gilbert Durand, Cornelius
Castoriadis, Michel Mafesolli). Existem tantos mundos quanto nossa capacidade
de imaginar. Para eles, “a imaginação está no poder”, como queriam os
estudantes de Paris em maio de 1968.
Na verdade, essas categorias não são novas na teoria da educação, mas
hoje elas são lidas e analisadas com mais simpatia que no passado. Sob diversas
formas e com diferentes significados, encontramos essas categorias em muitos
intelectuais, filósofos e educadores, de ontem e de hoje: o “sentido do outro”,
a “curiosidade” (Paulo Freire), a “tolerância” (Karl Jaspers), a “estrutura de
acolhida” (Paul Ricoeur), o “diálogo” (Martin Buber), a “autogestão” (Celestin
Freinet, Michel Lobrot), a “desordem” (Edgar Morin), a “ação comunicativa”, o
“mundo vivido” (Jürgen Habermas), a “radicalidade” (Agnes Heller), a “empatia”
(Carl Rogers), a “questão de gênero” (Moema Viezzer, Nelly Stromquist), o
“cuidado” (Leonardo Boff), a “esperança” (Ernest Bloch), a “alegria” (Georges
Snyders), a unidade do homem contra as “unidimensionalizações” (Herbert
Marcuse) etc.
Não podemos negar as divergências existentes entre eles. Contudo, as
categorias apontadas acima indicam uma certa tendência, ou melhor, uma
perspectiva da educação. Os que sustentam os paradigmas holonômicos procuram
buscar, na unidade dos contrários e na cultura contemporânea, um sinal dos
tempos, uma direção do futuro, que eles chamam de pedagogia da unidade.
As perspectivas holísticas da educação provocaram grandes discussões nos
últimos anos. Elas se referem, frequentemente, às categorias
transdisciplinaridade e complexidade. Creio que se deve entender a
transdisciplinaridade como a entendia Jean Piaget, como “etapa superior da
interdisciplinaridade”, isto é, como atitude e como método, indispensáveis ao
pesquisador e ao educador e como dimensão essencial de tudo o que existe. A
intertransdisciplinaridade está aqui dentro porque está lá fora, nas coisas.
Significando basicamente “através” e “além” das disciplinas, a transdisciplinaridade
consagra a unidade multidimensional do ato educativo. Ela procura compreender,
mais do que acumular conhecimentos, inclui, agrega, compartilha, não divide...
Por isso, Paulo Freire aproximava a atitude interdisciplinar da atitude transdisciplinar:
porque encontrava nas duas o coletivo instituinte, o trabalho em grupo, a
convivialidade, a transversalidade, o diálogo.
[HOLISTAS SUSTENTAM QUE IMAGINÁRIO E UTOPIA SÃO OS GRANDES FATORES
INSTITUINTES DA SOCIEDADE]
A complexidade não deve ser entendida como um paradigma, mas como um
dado da realidade, o real em processo, em transformação incessante, em criação
e recriação, construção e reconstrução. Os dualismos provocaram sempre grande
sofrimento, separando corpo e mente, por exemplo. Eles provocam desequilíbrios,
dúvidas, ansiedades. Nesse sentido, deve-se entender a transdisciplinaridade
como um desdobramento, um aprofundamento, da própria noção de dialética. Com
essa nova abordagem, a dialética está se renovando. Entendida como atitude e
como método, a transdisciplinaridade poderá dar uma contribuição ao estudo e à
prática daquilo que chamo de Pedagogia da Terra, a ecopedagogia, que incorpora
a atitude, a vivência e a convivência transdisciplinar. Ela também se apoia
numa certa compreensão da complexidade. “A verdade é o todo”, dizia
EDUCAÇÃO POPULAR
O paradigma da educação popular, inspirado originalmente no trabalho de
Paulo Freire nos anos 60, encontrava na conscientização sua categoria
fundamental. A prática e a reflexão sobre a prática, levou a incorporar outra
categoria não menos importante: a da organização. Afinal, não basta estar
consciente, é preciso organizar-se para poder transformar. Nos últimos anos, os
educadores que permaneceram fiéis aos princípios da educação popular atuaram principalmente
em duas direções: na educação pública popular – no espaço conquistado no
interior do Estado – e na educação popular comunitária e na educação ambiental
ou sustentável, predominantemente não governamentais. Durante os regimes
autoritários da América Latina a educação popular manteve sua unidade,
combatendo as ditaduras e apresentando projetos “alternativos”. Com as
conquistas democráticas, ocorreu com a educação popular uma grande fragmentação
em dois sentidos: O modelo teórico da educação popular, elaborado na reflexão
sobre a prática da educação durante várias décadas, tornou-se, sem dúvida, uma
das grandes contribuições da América Latina à teoria e à prática educativas em
nível internacional. A noção de aprender a partir do conhecimento do sujeito, a
noção de ensinar a partir de palavras e temas geradores, a educação como ato de
conhecimento e de transformação social, a politicidade da educação são apenas
alguns dos legados da educação popular à pedagogia crítica universal.
DUPLA ENCRUZILHADA
Neste começo de um novo milênio, a educação apresenta-se numa dupla
encruzilhada: de um lado o desempenho do sistema escolar não tem dado conta da
universalização da educação básica de qualidade; de outro, as novas matrizes
teóricas não apresentam ainda a consistência global necessária para indicar
caminhos realmente seguros numa época de profundas e rápidas transformações.
Essa é uma das preocupações do Instituto Paulo Freire, buscando, a partir do
legado de Paulo Freire, consolidar o seu “Projeto da Escola Cidadã”, como
resposta à crise de paradigmas. A concepção teórica e as práticas desenvolvidas
a partir do conceito de Escola Cidadã podem constituir-se numa alternativa
viável, de um lado, ao projeto neoliberal de educação, amplamente hegemônico,
baseado na ética do mercado livre, e, de outro lado, à teoria e à prática de
uma educação burocrática, sustentada na “estadolatria” (Antonio Gramsci). É uma
escola que busca fortalecer autonomamente o seu projeto político-pedagógico
relacionando-se dialeticamente – não mecânica e subordinadamente – com o
Mercado, o Estado e a Sociedade. Seja qual for a perspectiva que a educação
tomar no século XXI, uma educação voltada para o futuro, será sempre uma
educação contestadora, superadora dos limites impostos pelo Estado e pelo
Mercado, portanto, uma educação muito mais voltada para a transformação social
do que para a transmissão cultural. Por isso, acreditamos que a pedagogia da
práxis, como uma pedagogia transformadora, em suas várias manifestações, pode
oferecer um referencial geral mais seguro do que as pedagogias centradas na
transmissão cultural, neste momento de perplexidade.
Costuma-se definir nossa era como a era do conhecimento. Se for pela
importância dada hoje ao conhecimento, em todos os setores, podemos dizer que
vivemos mesmo na era do conhecimento, na sociedade do conhecimento, sobretudo
em conseqüência da informatização e do processo de globalização das
telecomunicações a ela associado.
[ESTÁ EM ANDAMENTO UMA REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO COMPARÁVEL À REVOLUÇÃO
INDUSTRIAL]
As novas tecnologias criaram novos espaços do conhecimento. Agora, além
da escola, também a empresa, o espaço domiciliar e o espaço social tornaram-se
educativos. Cada dia mais pessoas estudam em casa, pois podem, de casa, acessar
o ciberespaço da formação e da aprendizagem a distância, buscar “fora” – a
informação disponível nas redes de computadores interligados – serviços que
respondem às suas demandas de conhecimento. Por outro lado, a sociedade civil
(ONGs, associações, sindicatos, igrejas...) está se fortalecendo, não apenas
como espaço de trabalho, em muitos casos, voluntário, mas também como espaço de
difusão de conhecimentos e de formação continuada. É um espaço potencializado
pelas novas tecnologias, inovando constantemente as metodologias. Novas
oportunidades parecem abrir-se para os educadores. Esses espaços de formação
têm tudo para permitir maior democratização da informação e do conhecimento,
portanto, menos distorção e menos manipulação, menos controle e mais liberdade.
É uma questão de tempo, de políticas públicas adequadas e de iniciativa da
sociedade. O conhecimento é o grande capital da humanidade. Não é apenas o
capital da transnacional que precisa dele para a inovação tecnológica. Ele é
básico para a sobrevivência de todos. Por isso ele não deve ser vendido ou
comprado, mas disponibilizado a todos. Esta é a função de instituições que se
dedicam ao conhecimento, apoiadas nos avanços tecnológicos. Esperamos que a
educação do futuro seja mais democrática, menos excludente. Essa é ao mesmo
tempo nossa causa e nosso desafio. Infelizmente, diante da falta de políticas
públicas no setor, acabaram surgindo “indústrias do conhecimento” que
mercantilizaram a educação, prejudicando uma possível visão humanista,
tornando-a instrumento de lucro e de poder econômico.
RENOVAÇÃO CULTURAL
O que cabe à escola na sociedade informacional, sob uma perspectiva
transformadora? Cabe a ela organizar um movimento global de renovação cultural,
aproveitando-se de toda essa riqueza de informações. Hoje é a empresa que está
assumindo esse papel inovador. A escola não pode ficar a reboque das inovações
tecnológicas. Ela precisa ser um centro de inovação. Nós temos uma tradição de
dar pouca importância à educação tecnológica, a qual deveria começar já na
educação infantil.
Na sociedade da informação a escola deve servir de bússola para navegar
nesse mar do conhecimento, superando a visão utilitarista de só oferecer
informações “úteis” para a competitividade, para obter resultados. Ela deve
oferecer uma formação geral na direção de uma educação integral. O que
significa servir de bússola? Significa orientar criticamente, sobretudo as
crianças e jovens, na busca de uma informação que os faça crescer. Nesse
contexto de impregnação do conhecimento cabe à escola: amar o conhecimento como
espaço de realização humana, de alegria e de contentamento cultural; cabe-lhe
selecionar e rever criticamente a informação; formular hipóteses; ser criativa
e inventiva (inovar); ser provocadora de mensagens e não pura receptora;
produzir, construir e reconstruir conhecimento elaborado. E mais: sob uma
perspectiva emancipadora da educação, a escola tem que fazer tudo isso em favor
dos excluídos. Não discriminar o pobre. Ela não pode distribuir poder, mas pode
construir e reconstruir conhecimentos, saber, que é poder. Sob uma perspectiva
emancipadora da educação, a tecnologia contribui pouco para a emancipação dos
excluídos se não for associada ao exercício da cidadania. Como diz Ladislau
Dowbor, a escola deixará de ser “lecionadora” para ser “gestora do
conhecimento”.“Pela primeira vez, diz ele, a educação tem a possibilidade de
ser determinante sobre o desenvolvimento”. A educação tornou-se estratégica
para o desenvolvimento. Mas, para isso, não basta “modernizá-la”, como querem
alguns. Será preciso transformá-la profundamente.
O que é ser professor hoje? Ser professor hoje é viver intensamente o
seu tempo, conviver; é ter consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um
futuro para a humanidade sem educadores como não se pode pensar num futuro sem
poetas e filósofos. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam
a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam
pessoas. Diante dos falsos pregadores da palavra, dos marqueteiros, eles são os
verdadeiros “amantes da sabedoria”, os filósofos de que nos falava Sócrates.
Eles fazem fluir o saber (não o dado, a informação e o puro conhecimento),
porque constroem sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam,
juntos, um mundo mais justo, mas produtivo e mais saudável para todos. Por isso
eles são imprescindíveis.
EDUCAÇÃO DO FUTURO
Iniciamos este texto procurando situar o que significa “perspectiva”.
Sem pretender fazer qualquer exercício de futurologia. No sentido de
estabelecer pontos para o debate, gostaríamos de apontar agora algumas
categorias em torno da educação do futuro. Elas indicam o surgimento de temas
com importantes conseqüências para a educação.
1ª) Cidadania. O que implica também tratar do tema da autonomia da
escola, de seu projeto político-pedagógico, da questão da participação, da
educação para e pela cidadania. A partir dessa categoria podemos discutir
particularmente o significado da concepção de escola cidadã e de suas
diferentes práticas. Educar para a cidadania ativa tornou-se hoje projeto e
programa de muitas escolas e de sistemas educacionais.
2ª) Planetaridade. A Terra é um “novo paradigma” (Leonardo Boff). Que
implicações tem essa visão de mundo sobre a educação? O que seria uma
ecopedagogia (Francisco Gutiérrez) e uma ecoformação (Gaston Pineau)? O tema da
cidadania planetária pode ser discutido a partir dessa categoria.
3ª) Sustentabilidade. O tema da sustentabilidade originouse na biologia,
passando pela economia (“desenvolvimento sustentável”), pela ecologia, para
inserir-se definitivamente no campo da educação: educar para uma educação
sustentável. O que seria uma cultura da sustentabilidade? Esse tema deverá
dominar muitos debates educativos nas próximas décadas. O que estamos estudando
nas escolas? Não estaremos construindo uma ciência e uma cultura que servem
para a degradação e para a deterioração do planeta?
4ª) Virtualidade. Esse tema implica toda a discussão atual sobre a
educação a distância e o uso dos computadores nas escolas. A informática
associada à telefonia nos inseriu definitivamente na era da informação. Quais
as conseqüências para a educação, para a escola, para a formação do professor e
para a aprendizagem? Conseqüências da obsolescência do conhecimento. Como fica
a escola diante da pluralidade dos meios de comunicação? Eles nos abrem os
novos espaços da formação ou irão substituir a escola?
5ª) Globalização. O processo da globalização está mudando a política, a
economia, a cultura, a história... portanto, também a educação. É um tema que
deve ser enfocado sob vários prismas. A globalização remete também ao poder
local e às conseqüências locais da nossa dívida externa global (e dívida
interna também, a ela associada). O global e o local se fundem numa nova
realidade: o “glocal”. O estudo desta categoria nos remete à necessária
discussão do papel dos municípios e do “regime de colaboração” entre união,
estados, municípios e comunidade, nas perspectivas atuais da Educação Básica.
Para pensar a educação do futuro, precisamos refletir sobre o processo de
globalização da economia, da cultura e das comunicações.
6ª) Transdisciplinaridade. Embora com significados distintos, certas
categorias como transculturalidade, transversalidade, multiculturalidade e
outras como complexidade e holismo também indicam uma nova tendência na
educação que será preciso analisar. Como construir interdisciplinarmente o
projeto pedagógico da escola? Como relacionar multiculturalidade e currículo? É
necessário realizar o debate dos parâmetros curriculares. Como trabalhar com os
“temas transversais”? O desafio de uma educação sem discriminação étnica,
cultural, de gênero.
7ª) Dialogicidade, dialeticidade. Não podemos negar a atualidade de
certas categorias freireanas e marxistas, isto é, a validade de uma pedagogia
dialógica ou da práxis. Marx, em O capital, privilegiou as categorias
hegelianas “determinação”, “contradição”, “necessidade”, “possibilidade”. A
fenomenologia hegeliana continua inspirando nossa educação e deverá atravessar
o milênio. A educação popular e a pedagogia da práxis deverão continuar como
paradigmas válidos para além do século XXI.
DIALÉTICA AINDA É PARADIGMA MAIS CONSISTENTE PARA ANALISAR FENÔMENO DA
EDUCAÇÃO]
A análise dessas categorias, a identificação da sua presença na
pedagogia contemporânea, pode constituir-se, sem dúvida, num grande programa a
ser desenvolvido hoje em torno das “perspectivas atuais da educação”. Não
pretendi ser completo nem exaustivo. Não pretendo dar respostas definitivas.
Com esse pequeno texto introdutório pretendo apenas iniciar um debate sobre as
perspectivas atuais da educação. Não tenho a intenção de, com isso, encerrá-lo.
Estou ciente de que existem muitos outros desafios para a educação. A reflexão
crítica não basta, como também não basta a prática sem a reflexão sobre ela.
Neste pequeno texto indiquei apenas algumas pistas, dentro de uma visão
otimista e crítica – não pessimista e ingênua – para uma análise em
profundidade daqueles e daquelas que se interessam por uma educação voltada
para o futuro, uma educação apropriada para o século XXI.
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